A síndrome do ovário policístico, conhecida pela sigla SOP, é uma das condições ginecológicas mais comuns em mulheres em idade reprodutiva. Estima-se que ela afete cerca de uma em cada oito mulheres, o equivalente a mais de 170 milhões de pessoas no mundo. Ainda assim, o diagnóstico costuma demorar anos, porque os sintomas são variados e muitas vezes confundidos com outras condições.
Em 2026, a síndrome passou por uma mudança importante: após um consenso internacional publicado na revista científica The Lancet, com a participação de 56 organizações científicas e grupos de pacientes de diferentes países, a SOP ganhou um novo nome: SOMP, sigla para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina. A mudança reconhece que a condição vai muito além dos ovários e que nem toda mulher com SOP tem cistos.
Neste artigo, explico o que a ciência sabe hoje sobre a SOP/SOMP: o que ela é, quais são os sintomas, como é feito o diagnóstico e quais são as opções de tratamento baseadas em evidências.
O que é a síndrome do ovário policístico
A SOP é uma condição hormonal e metabólica. Ela se caracteriza, principalmente, por três alterações: irregularidade nos ciclos menstruais, sinais de excesso de androgênios (hormônios masculinos como a testosterona) e ovários com múltiplos folículos pequenos ao ultrassom. Mas atenção: não é preciso ter os três para receber o diagnóstico.
A principal causa da SOP ainda está sendo estudada, mas sabe-se que a resistência à insulina tem um papel central no desenvolvimento da síndrome. Quando as células do corpo respondem mal à insulina, o pâncreas produz mais desse hormônio para compensar. O excesso de insulina estimula os ovários a produzirem mais androgênios, o que interfere na ovulação e gera boa parte dos sintomas da SOP.
O novo nome, SOMP, foi adotado justamente para refletir essa complexidade: a síndrome envolve alterações hormonais, metabólicas, cardiovasculares e reprodutivas, e não se limita aos ovários.
Sintomas mais comuns
Os sintomas da SOP variam bastante de mulher para mulher. Algumas têm um quadro leve; outras enfrentam impactos significativos no ciclo menstrual, na pele, no peso e na fertilidade. Os sinais mais frequentes são:
- Irregularidade menstrual: ciclos muito espaçados (mais de 35 dias), ausência de menstruação por meses ou menstruações muito frequentes. Presente em aproximadamente 75% das mulheres com SOP
- Acne persistente: especialmente no queixo, pescoço e parte inferior do rosto, relacionada ao excesso de androgênios
- Hirsutismo: crescimento de pelos em regiões atípicas para mulheres, como buço, queixo, peito e abdômen
- Queda de cabelo: alopecia androgênica, com afinamento progressivo dos fios, especialmente no topo da cabeça
- Dificuldade para engravidar: a ovulação irregular ou ausente é uma das causas mais comuns de infertilidade feminina
- Ganho de peso: especialmente na região abdominal, associado à resistência à insulina
- Seborréia: oleosidade excessiva na pele e no couro cabeludo
É importante ressaltar que uma mulher pode ter SOP sem ganho de peso, sem acne e sem pelos excessivos. A síndrome tem apresentações muito diferentes e o diagnóstico não depende de ter todos esses sintomas.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico da SOP segue os Critérios de Rotterdam, que são os mais utilizados mundialmente. Por eles, a síndrome é confirmada quando a mulher apresenta pelo menos dois dos seguintes três critérios:
- Oligo ou anovulação: ciclos menstruais irregulares, com menos de seis menstruações por ano, ou ausência de menstruação
- Hiperandrogenismo: clínico (acne, hirsutismo, alopecia) ou laboratorial (exames de sangue mostrando elevação de testosterona, androstenediona ou DHEA-S)
- Ovários policísticos ao ultrassom: mais de 20 folículos pequenos (entre 2 e 9 mm) em pelo menos um ovário, ou volume ovariano igual ou superior a 10 cm³
Uma atualização importante de 2023, reconhecida pelo consenso internacional, define que mulheres com irregularidade menstrual e hiperandrogenismo clínico podem ser diagnosticadas sem a necessidade de realizar o ultrassom. Isso facilita o diagnóstico em adolescentes e em regiões com acesso limitado ao exame de imagem.
Além dos critérios diagnósticos, é importante descartar outras condições que podem imitar a SOP, como hipotireoidismo, hiperprolactinemia e hiperplasia adrenal congênita. Por isso, o diagnóstico envolve uma avaliação clínica completa e exames laboratoriais.
A relação entre SOP e resistência à insulina
A resistência à insulina está presente na grande maioria das mulheres com SOP, independentemente do peso corporal. Ela não é um critério diagnóstico, mas é um dos mecanismos centrais da síndrome.
Quando há resistência à insulina, o corpo precisa produzir mais desse hormônio para manter a glicose em níveis normais. O excesso de insulina estimula os ovários a produzirem mais androgênios, o que prejudica a ovulação e gera os sinais de hiperandrogenismo como acne e pelos excessivos.
A longo prazo, a resistência à insulina não tratada aumenta o risco de diabetes tipo 2, síndrome metabólica e doenças cardiovasculares. Por essa razão, a SOP é considerada hoje um fator de risco cardiovascular independente, e o acompanhamento metabólico é parte essencial do tratamento.
Opções de tratamento
O tratamento da SOP é individualizado e depende dos sintomas predominantes e do desejo reprodutivo da paciente. Não existe um tratamento único para todas as mulheres com SOP.
Mudanças de estilo de vida
Para todas as mulheres com SOP, independentemente do peso, a adoção de hábitos saudáveis é a base do tratamento. Atividade física regular e alimentação equilibrada melhoram a sensibilidade à insulina, regulam o ciclo menstrual e reduzem o hiperandrogenismo. Mesmo uma perda de peso modesta, entre 5% e 10% do peso corporal em mulheres com sobrepeso, já é capaz de restaurar a ovulação espontânea em muitos casos.
Anticoncepcional hormonal combinado
Para mulheres que não desejam engravidar no momento, o anticoncepcional hormonal combinado (pílula ou anel vaginal) é uma das principais opções medicamentosas. Ele regula o ciclo menstrual, reduz a produção de androgênios pelos ovários e melhora os sinais de hiperandrogenismo como acne e hirsutismo. O anticoncepcional controla os sintomas enquanto é usado, mas não trata a causa subjacente da síndrome.
Metformina
A metformina é um medicamento originalmente desenvolvido para diabetes tipo 2 que age melhorando a sensibilidade à insulina. Em mulheres com SOP, ela ajuda a regularizar o ciclo menstrual, reduzir os androgênios e, em alguns casos, restaurar a ovulação espontânea. Revisões integrativas publicadas no Brazilian Journal of Health Review concluíram que a metformina gerou resultados consistentes em mulheres com SOP: redução da glicemia e insulinemia, normalização do ciclo e melhora da fertilidade. É especialmente indicada para pacientes com resistência à insulina, sobrepeso ou risco de diabetes.
Agonistas de GLP-1 (semaglutida e liraglutida)
Os agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida (Ozempic/Wegovy) e a liraglutida, surgiram como uma alternativa terapêutica promissora para mulheres com SOP e obesidade. Estudos recentes mostram que esses medicamentos reduzem o peso corporal, melhoram a sensibilidade à insulina e têm efeitos benéficos nos perfis hormonais. Foram tema de destaque no Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia de 2026. Eles não estão indicados para todas as mulheres com SOP e o uso deve ser avaliado individualmente pelo médico.
SOP e gravidez: é possível engravidar?
Sim. A grande maioria das mulheres com SOP consegue engravidar, especialmente com acompanhamento especializado. A irregularidade ou ausência de ovulação é o principal obstáculo, mas pode ser tratada com medicamentos indutores de ovulação.
Conforme o novo guideline de SOP, o tratamento para fertilidade segue uma progressão:
- Primeira linha: letrozol, um indutor de ovulação com eficácia superior ao clomifeno na SOP
- Segunda linha: clomifeno associado à metformina (a metformina potencializa a resposta ao indutor)
- Terceira linha: fertilização in vitro, quando as opções anteriores não forem eficazes
É importante começar o acompanhamento com antecedência. Quanto mais cedo o diagnóstico for feito e o tratamento iniciado, maiores as chances de regularizar a ovulação e preservar a fertilidade a longo prazo.
O que o novo nome SOMP muda na prática
A mudança de nome de SOP para SOMP não altera os critérios diagnósticos nem os tratamentos disponíveis atualmente. A transição será gradual e a adoção completa está prevista para 2028, segundo o consenso publicado em The Lancet.
O que muda é a forma de entender a condição. O novo nome deixa claro que a síndrome é, antes de tudo, um distúrbio hormonal e metabólico, e que os ovários são apenas um dos órgãos afetados. Isso tem implicações diretas para o acompanhamento: mulheres com SOP precisam de atenção não só ginecológica, mas também endocrinológica e cardiológica a longo prazo.
Se você suspeita ter SOP ou já tem o diagnóstico, o mais importante é ter um acompanhamento ginecológico regular e individualizado. O tratamento correto pode controlar completamente os sintomas, regularizar o ciclo, proteger sua saúde metabólica e preservar a sua fertilidade.
Perguntas frequentes sobre SOP
Toda mulher com ovário policístico tem SOP?
Não. Ter ovários com aparência policística no ultrassom é uma característica anatômica que pode estar presente em mulheres sem a síndrome. O diagnóstico de SOP (ou SOMP) exige a presença de pelo menos dois dos três critérios de Rotterdam: irregularidade menstrual, sinais de excesso de androgênios e ovários policísticos ao ultrassom. Uma mulher com ovários policísticos ao exame, mas com ciclos regulares e sem hiperandrogenismo, não tem a síndrome.
SOP tem cura?
A SOP não tem cura no sentido de eliminar a condição definitivamente, pois é uma síndrome de base hormonal e metabólica. No entanto, com acompanhamento adequado, mudanças de estilo de vida e, quando necessário, medicação, é completamente possível controlar os sintomas, regularizar o ciclo menstrual e preservar a fertilidade. Muitas mulheres vivem muito bem com a SOP ao longo de toda a vida reprodutiva.
Mulher com SOP pode engravidar?
Sim. A grande maioria das mulheres com SOP consegue engravidar, especialmente com acompanhamento especializado. Existem medicamentos indutores de ovulação eficazes, como o letrozol, que são a primeira linha de tratamento para fertilidade em mulheres com SOP. Em casos mais complexos, técnicas de reprodução assistida podem ser indicadas, com boas taxas de sucesso.
O que é SOMP? É diferente de SOP?
SOMP (Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina) é o novo nome adotado em 2026 para a condição que antes era chamada de SOP (Síndrome do Ovário Policístico). A mudança foi publicada na revista The Lancet após um consenso internacional que reuniu 56 organizações científicas. É a mesma condição, com o mesmo diagnóstico e tratamento. O nome foi atualizado para refletir melhor a natureza hormonal e metabólica da síndrome, já que ela vai muito além dos ovários e não depende da presença de cistos para ser diagnosticada.
Anticoncepcional trata SOP?
O anticoncepcional hormonal combinado é uma das principais opções para controlar os sintomas da SOP em mulheres que não desejam engravidar no momento. Ele regula o ciclo menstrual, reduz o excesso de androgênios e melhora acne e hirsutismo. No entanto, ele não trata a causa da síndrome e os sintomas podem retornar após a suspensão. O tratamento completo da SOP envolve também mudanças de estilo de vida e, conforme o caso clínico, metformina.


