Papanicolau e HPV: o que mudou e o que toda mulher precisa saber

Papanicolau e HPV: prevenção do câncer de colo do útero

Outubro Rosa é o mês em que o tema da prevenção do câncer feminino ganha mais visibilidade no Brasil. E este outubro de 2026 chega com uma novidade importante que muitas mulheres ainda não sabem: o exame preventivo para câncer de colo do útero mudou.

O Papanicolau, que por décadas foi o principal exame de rastreamento no sistema público, deixou de ser o exame primário no SUS. No lugar, o Ministério da Saúde implantou o teste de DNA-HPV, uma tecnologia mais precisa que detecta diretamente o vírus responsável pela quase totalidade dos casos de câncer de colo do útero.

Neste artigo, explico o que essa mudança significa na prática, o que o Papanicolau ainda detecta, quem deve tomar a vacina contra o HPV e o que você precisa fazer agora para se proteger.

O que é o Papanicolau

O Papanicolau, também chamado de exame preventivo ou citologia oncótica cervical, é uma coleta de células do colo do útero feita durante o exame ginecológico. As células coletadas são analisadas em laboratório para identificar alterações que podem evoluir para câncer se não tratadas.

Por décadas, foi o principal método de rastreamento do câncer de colo do útero no Brasil e no mundo, responsável por uma queda significativa nas taxas de mortalidade por essa doença. Ele também avalia inflamações, infecções por fungos, Trichomonas e outras alterações das células cervicais.

O que é o HPV e sua relação com o câncer de colo do útero

O HPV, sigla para Papilomavírus Humano, é a infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo. Existem mais de 100 tipos do vírus, dos quais cerca de 14 são considerados de alto risco oncogênico, ou seja, têm potencial de provocar câncer.

Os tipos 16 e 18 são responsáveis por aproximadamente 70% dos casos de câncer de colo do útero. A maioria das infecções por HPV é assintomática e se resolve sozinha em até dois anos. O problema ocorre quando a infecção por um tipo de alto risco persiste, pois ao longo de 10 a 20 anos pode causar lesões pré-cancerosas e, sem tratamento, evoluir para câncer.

No Brasil, o INCA estima cerca de 17.000 novos casos de câncer de colo do útero por ano. É o terceiro tipo de câncer mais frequente entre as mulheres brasileiras, e a maior parte dos casos é evitável com rastreamento regular e vacinação.

A grande mudança: o teste de DNA-HPV como exame primário

Em março de 2024, o Ministério da Saúde publicou a Portaria SECTICS/MS nº 3, incorporando o teste de DNA-HPV ao SUS como exame primário de rastreamento do câncer de colo do útero. A oferta ao público começou em agosto de 2025 e está sendo expandida para toda a rede pública nacional ao longo de 2026.

O teste de DNA-HPV detecta diretamente a presença do vírus no material coletado do colo do útero, identificando os 14 genótipos de alto risco oncogênico. É mais sensível do que o Papanicolau para detectar lesões que ainda não são visíveis ao microscópio.

O que muda na prática

  • No SUS: o teste de DNA-HPV passa a ser o exame de entrada. Se o resultado for negativo, o próximo exame é feito em 5 anos (antes, com o Papanicolau, eram 3 anos após dois resultados normais consecutivos). Se positivo, o Papanicolau e a colposcopia são solicitados como investigação complementar.
  • O Papanicolau não foi abolido: continua sendo um exame importante, agora como ferramenta complementar quando o teste de HPV identifica a presença do vírus.
  • Na rede privada: o ginecologista define a melhor estratégia para cada paciente, podendo utilizar o teste de DNA-HPV, o Papanicolau ou os dois em conjunto, de acordo com a faixa etária, histórico e fatores de risco individuais.

A mudança representa um avanço real na detecção precoce. Um teste negativo para HPV de alto risco praticamente descarta o risco de desenvolver câncer de colo do útero nos próximos anos, enquanto o Papanicolau, por detectar alterações celulares, depende de o vírus já ter causado alguma modificação visível nas células.

A vacina contra o HPV: quem deve tomar

A vacina é a ferramenta mais poderosa de prevenção disponível. Estudos recentes mostram que a vacinação em massa no Brasil reduziu a prevalência dos tipos vacinais em quase 50% entre a população jovem, e em mulheres vacinadas de 16 a 25 anos essa queda chegou a 80%.

Vacina no SUS (quadrivalente)

A vacina quadrivalente, que protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18, está disponível gratuitamente no SUS para:

  • Meninas e meninos de 9 a 14 anos (rotina, dose única desde 2024)
  • Jovens de 15 a 19 anos, em campanha ampliada com prazo até dezembro de 2026
  • Pessoas imunossuprimidas, com HIV e pacientes oncológicos de 9 a 45 anos

Vacina na rede privada (nonavalente)

A vacina nonavalente, conhecida como Gardasil 9, protege contra 9 tipos de HPV (6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58), cobrindo os vírus responsáveis por aproximadamente 90% dos cânceres de colo do útero e 90% das verrugas genitais. É a opção disponível em clínicas e farmácias particulares.

A ANVISA aprova seu uso em mulheres e homens de 9 a 45 anos. Em fevereiro de 2026, a ANVISA atualizou a bula para incluir também a prevenção de cânceres de orofaringe, cabeça e pescoço causados pelo HPV, ampliando ainda mais as indicações. O esquema é de 3 doses administradas em 6 meses.

Vale a pena tomar a vacina mesmo após o início da vida sexual?

Sim, e com clareza. A vacina protege contra os tipos de HPV com os quais a pessoa ainda não teve contato. Como são 9 tipos na nonavalente, mesmo quem já teve relação sexual há anos tem alta probabilidade de se beneficiar da vacinação. O ideal é vacinar na infância ou adolescência, antes do início da vida sexual, mas a vacinação em adultos tem eficácia documentada e é recomendada até os 45 anos.

O Papanicolau ainda é necessário na rede privada?

Sim. O Papanicolau continua sendo um exame com informações valiosas: avalia a qualidade das células cervicais, identifica inflamações e infecções, e compõe uma avaliação ginecológica completa. Na rede privada, o ginecologista pode solicitar o teste de DNA-HPV, o Papanicolau ou os dois, conforme o perfil da paciente.

Em mulheres acima de 30 anos com histórico de lesões ou com fatores de risco, a combinação dos dois exames oferece o maior nível de segurança no rastreamento.

Quando procurar a ginecologista

Não espere ter sintomas para marcar a consulta. O câncer de colo do útero raramente causa sintomas nas fases iniciais, que é exatamente quando o tratamento é mais eficaz e menos invasivo. Procure o ginecologista:

  • Se você tem entre 25 e 64 anos e ainda não faz rastreamento regular
  • Se o último Papanicolau foi há mais de 3 anos (ou mais de 5 anos se fez o teste de DNA-HPV e estava negativo)
  • Se você ainda não tomou a vacina contra o HPV ou não completou o esquema
  • Se tiver sangramento vaginal após a relação sexual, fora do período menstrual ou depois da menopausa
  • Se tiver corrimento com odor forte que não melhora com tratamentos anteriores

Prevenção não é paranoia. É cuidado. O câncer de colo do útero é um dos mais evitáveis quando detectado cedo, e as ferramentas disponíveis hoje, exame regular e vacinação, são suficientes para que nenhuma mulher precise chegar a um estágio avançado dessa doença.

Perguntas frequentes sobre Papanicolau e HPV

Com que frequência devo fazer o exame preventivo ginecológico?

Com a nova diretriz do Ministério da Saúde, o teste de DNA-HPV passou a ser o exame primário de rastreamento. Se o resultado for negativo, o próximo exame é em 5 anos. Se ainda for feito o Papanicolau, a recomendação é anual nos dois primeiros anos e, após dois resultados normais consecutivos, a cada 3 anos até os 64 anos. Mulheres com fatores de risco têm protocolos individualizados definidos com a ginecologista.

O teste molecular do HPV substitui completamente o Papanicolau?

No SUS, sim: o teste de DNA-HPV passou a ser o exame primário de rastreamento do câncer de colo do útero (Portaria SECTICS/MS nº 3, março de 2024, com oferta ao público a partir de agosto de 2025). O Papanicolau não foi abolido, mas passou a ser um exame complementar, realizado quando o teste de HPV dá positivo. Na rede privada, o ginecologista decide a melhor estratégia para cada paciente.

A vacina contra HPV protege quem já teve relação sexual?

Sim. A vacina é eficaz mesmo em quem já iniciou a vida sexual, pois protege contra os tipos de HPV com os quais a pessoa ainda não teve contato. A ANVISA aprova o uso da vacina nonavalente (Gardasil 9) em mulheres e homens de 9 a 45 anos. O ideal é vacinar antes do início da vida sexual, mas a vacinação tardia ainda oferece benefício real e é recomendada.

O Papanicolau detecta outros problemas além do HPV?

Sim. O Papanicolau avalia as células do colo do útero e pode identificar inflamações, infecções por outros agentes como Trichomonas e fungos, alterações hormonais e lesões pré-cancerosas de diferentes origens. Por isso, mesmo com o teste de DNA-HPV disponível, o Papanicolau continua sendo uma ferramenta importante na avaliação ginecológica completa.

Tenho mais de 45 anos. Ainda devo me preocupar com HPV?

Sim. O HPV pode se manifestar em qualquer idade, inclusive em mulheres na menopausa. O rastreamento com teste de DNA-HPV ou Papanicolau é recomendado até os 64 anos. A vacina nonavalente também é aprovada pela ANVISA até os 45 anos para quem ainda não completou o esquema vacinal. O acompanhamento ginecológico regular é fundamental em qualquer fase da vida.

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